MEMÓRIA
Faz tempo, meu pai,
que o tempo te levou,
e não sei ainda
quem eras, quem sou;
eu era menino, o senhor,
senhor de poucas palavras
e áspero amor.
Contudo, era amor,
e eram cinco filhos
e o salário pouco,
porém, se a grana
era menos, bem menos
que pouca,
honra nunca faltou:
esta a tua mais rica
e límpida lição
- bem maior que bens.
Lembro que sorrias,
não muito, é verdade,
mas sorrias, e como
teu riso difícil
sonorizava a casa:
era criança pulando,
saltitando álacre
de quarto em quarto,
pela sala, pela copa,
em meus ouvidos atentos.
Tua cachaça aos sábados,
tua conversa na esquina,
teus amigos, teu apelido,
teu gosto em ler,
tua letra antiga e bela,
teu retrato severo,
e tua solidão.
Minha mãe, tua família,
como a bem querias.
Hoje sentimos,
teus filhos, teu filho,
esse teu amor forte,
tão quente, tão pai
batendo na ausência.
Meu pai, meu pai,
e a conversa que nunca
nem jamais teremos,
teu caçula – ei-lo homem:
aprendeu a sofrer,
aprendeu a sorrir,
aprendeu a amar,
pois, a compreender.
Hoje soletro, meu pai,
as letras da tua,
minha solidão.
Hoje não posso, nem quero
tirar-te da memória
de meu sangue e gestos,
dos meus olhos que te vêem
tardezinha voltando pra casa,
teu rosto cansado,
teu cabelo rebelde,
teus olhos verdes e metálicos,
paizinho
(nunca pude te chamar assim).
À mesa,não preciso mais
vestir a incômoda camisa
- respeito ao alimento,
à presença do Senhor,
ao difícil pão de cada dia
(o que eu pensava ódio
era só amor
que com outra roupa
(dirias viril)
me vestia.
Foi na véspera
véspera do fim
que me contaste
tua vivida aventura
tão real sempre em mim:
um rio, uma cerca,
noite, chuva, enchente
- continuar mesmo assim.
Eu continuo, meu pai,
e guardo na minha
a tua mão amiga.
Se não sei quem eras,
se não sei que sou,
tua voz, contudo, meu pai,
- tua voz tão silenciosa –
nessa breve longa estrada
me diz sempre que sozinho,
que sozinhos sempre estamos.
(Cavalo Marinho)