é isso aí

Conhecimento não é suficiente, temos que compartilhá-lo/querer não é bastante, é preciso agir.
Goethe

Paisagens

abrir as rótulas dos pensamoções passear os pés descalços pelas paisagens plúrimas surpreendentes sempre da poesia que repousa, inquieta, na filosofia música arte - lajes úmidas onde se entreabrem nesgas desse tão outro incansável enigma que a língua, insuficiente, alcunha de realidade realidades realidade

terça-feira, 5 de abril de 2011

Nesta quinta, 07/abril, às 19h00, estarei lançando meu novo livro Na Asa Turva da Vertigem, 1º lugar no concurso da FUNC. O lançamento acontecerá no Chico Discos, na Rua dos Afogados, 384-A, em cima da Ótica Pupila. É a pauta do Papoético, em que escritores, músicos, cineastas, atores etc. nos reunimos pra conversar sobre literatura e cultura. Se você gosta desse barato, venha e traga mais alguém pra participar do lançamento do livro e saber mais sobre o Papoético. Haverá leitura de textos, perfomances, boa música e algo mais, bem mais. Reencontre velhos amigos e faça novas amizades.
Eis aí três poemas do Na Asa Turva da Vertigem.

SUBSTÂNCIA
não sou
nada sei nada sinto
sem sentidos sem sentido
sombra
sem vestígio de sol

sem ti
ó palavra
sou mudez
só ausência sou

TEIMOSIA COTIDIANA
todos os dias vais
todos os dias

vagando pelas ruas esquinas
de ti
esquinas dos sonhos
onde teimas
em existir
em resistir
à pressão ao afã à azáfama
do barulho ensurdecedor oriundo
dos círculos inferiores
do inferno de Wall Street

METAFÍSICA
carne e sonhos
é tudo que somos?

seres efêmeros
do eterno famintos?

angústia infinda
na existência finita?

momento fugaz
entreabrindo o vazio?

instante (já foi?)
tecendo o nada?

e tudo é sem sentido?










sábado, 16 de janeiro de 2010

SE SE CALA O CANTOR

se se cala o cantor, cala a vida,
porque a vida, a vida mesma,
é todo um canto

Mercedes Sosa

domingo, 29 de novembro de 2009

HOMEM MODERNO
teus olhos míopes
ouvem a notícia do mundo
teus ouvidos moucos
veem o oco do mundo
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs em tuas mãos vazias
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade
(Cavalo-Marinho)
LEITURA
nenhuma palavra é em vão
e no vão entre elas
janelas
vão abrindo pra dentro
(Itinerário do Caos)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

MATURIDADE

Tudo finda.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.

Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.

Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.


(Cavalo-Marinho)
HERANÇA

I
Nenhum vestígio de sonho
escreve-me a tarde
- essa tarde só mudez.

Nenhuma hóstia redime
a solidão dessa certeza
- meu corpo e eu.

Nenhum endereço
(além do silêncio)
guarda-me a voz.

II
Ó Dante
que mundo que mundo
de ruínas e indiferença
legaram a teus irmãos.

III
Perambulo pelas ruas
de um século moribundo.
Nenhum mapa ou radar
além desses homogêneos
mecânicos dias.
(Itinerário do Caos)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

MEMÓRIA


Faz tempo, meu pai,
que o tempo te levou,
e não sei ainda
quem eras, quem sou;
eu era menino, o senhor,
senhor de poucas palavras
e áspero amor.
Contudo, era amor,
e eram cinco filhos
e o salário pouco,
porém, se a grana
era menos, bem menos
que pouca,
honra nunca faltou:
esta a tua mais rica
e límpida lição
- bem maior que bens.

Lembro que sorrias,
não muito, é verdade,
mas sorrias, e como
teu riso difícil
sonorizava a casa:
era criança pulando,
saltitando álacre
de quarto em quarto,
pela sala, pela copa,
em meus ouvidos atentos.

Tua cachaça aos sábados,
tua conversa na esquina,
teus amigos, teu apelido,
teu gosto em ler,
tua letra antiga e bela,
teu retrato severo,
e tua solidão.

Minha mãe, tua família,
como a bem querias.
Hoje sentimos,
teus filhos, teu filho,
esse teu amor forte,
tão quente, tão pai
batendo na ausência.

Meu pai, meu pai,
e a conversa que nunca
nem jamais teremos,
teu caçula – ei-lo homem:
aprendeu a sofrer,
aprendeu a sorrir,
aprendeu a amar,
pois, a compreender.

Hoje soletro, meu pai,
as letras da tua,
minha solidão.

Hoje não posso, nem quero
tirar-te da memória
de meu sangue e gestos,
dos meus olhos que te vêem
tardezinha voltando pra casa,
teu rosto cansado,
teu cabelo rebelde,
teus olhos verdes e metálicos,
paizinho
(nunca pude te chamar assim).

À mesa,não preciso mais
vestir a incômoda camisa
- respeito ao alimento,
à presença do Senhor,
ao difícil pão de cada dia
(o que eu pensava ódio
era só amor
que com outra roupa
(dirias viril)
me vestia.

Foi na véspera
véspera do fim
que me contaste
tua vivida aventura
tão real sempre em mim:
um rio, uma cerca,
noite, chuva, enchente
- continuar mesmo assim.

Eu continuo, meu pai,
e guardo na minha
a tua mão amiga.

Se não sei quem eras,
se não sei que sou,
tua voz, contudo, meu pai,
- tua voz tão silenciosa –
nessa breve longa estrada
me diz sempre que sozinho,
que sozinhos sempre estamos.
(Cavalo Marinho)