é isso aí

Conhecimento não é suficiente, temos que compartilhá-lo/querer não é bastante, é preciso agir.
Goethe

Paisagens

abrir as rótulas dos pensamoções passear os pés descalços pelas paisagens plúrimas surpreendentes sempre da poesia que repousa, inquieta, na filosofia música arte - lajes úmidas onde se entreabrem nesgas desse tão outro incansável enigma que a língua, insuficiente, alcunha de realidade realidades realidade

domingo, 29 de novembro de 2009

HOMEM MODERNO
teus olhos míopes
ouvem a notícia do mundo
teus ouvidos moucos
veem o oco do mundo
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs em tuas mãos vazias
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade
(Cavalo-Marinho)
LEITURA
nenhuma palavra é em vão
e no vão entre elas
janelas
vão abrindo pra dentro
(Itinerário do Caos)

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

MATURIDADE

Tudo finda.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.

Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.

Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.


(Cavalo-Marinho)
HERANÇA

I
Nenhum vestígio de sonho
escreve-me a tarde
- essa tarde só mudez.

Nenhuma hóstia redime
a solidão dessa certeza
- meu corpo e eu.

Nenhum endereço
(além do silêncio)
guarda-me a voz.

II
Ó Dante
que mundo que mundo
de ruínas e indiferença
legaram a teus irmãos.

III
Perambulo pelas ruas
de um século moribundo.
Nenhum mapa ou radar
além desses homogêneos
mecânicos dias.
(Itinerário do Caos)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

MEMÓRIA


Faz tempo, meu pai,
que o tempo te levou,
e não sei ainda
quem eras, quem sou;
eu era menino, o senhor,
senhor de poucas palavras
e áspero amor.
Contudo, era amor,
e eram cinco filhos
e o salário pouco,
porém, se a grana
era menos, bem menos
que pouca,
honra nunca faltou:
esta a tua mais rica
e límpida lição
- bem maior que bens.

Lembro que sorrias,
não muito, é verdade,
mas sorrias, e como
teu riso difícil
sonorizava a casa:
era criança pulando,
saltitando álacre
de quarto em quarto,
pela sala, pela copa,
em meus ouvidos atentos.

Tua cachaça aos sábados,
tua conversa na esquina,
teus amigos, teu apelido,
teu gosto em ler,
tua letra antiga e bela,
teu retrato severo,
e tua solidão.

Minha mãe, tua família,
como a bem querias.
Hoje sentimos,
teus filhos, teu filho,
esse teu amor forte,
tão quente, tão pai
batendo na ausência.

Meu pai, meu pai,
e a conversa que nunca
nem jamais teremos,
teu caçula – ei-lo homem:
aprendeu a sofrer,
aprendeu a sorrir,
aprendeu a amar,
pois, a compreender.

Hoje soletro, meu pai,
as letras da tua,
minha solidão.

Hoje não posso, nem quero
tirar-te da memória
de meu sangue e gestos,
dos meus olhos que te vêem
tardezinha voltando pra casa,
teu rosto cansado,
teu cabelo rebelde,
teus olhos verdes e metálicos,
paizinho
(nunca pude te chamar assim).

À mesa,não preciso mais
vestir a incômoda camisa
- respeito ao alimento,
à presença do Senhor,
ao difícil pão de cada dia
(o que eu pensava ódio
era só amor
que com outra roupa
(dirias viril)
me vestia.

Foi na véspera
véspera do fim
que me contaste
tua vivida aventura
tão real sempre em mim:
um rio, uma cerca,
noite, chuva, enchente
- continuar mesmo assim.

Eu continuo, meu pai,
e guardo na minha
a tua mão amiga.

Se não sei quem eras,
se não sei que sou,
tua voz, contudo, meu pai,
- tua voz tão silenciosa –
nessa breve longa estrada
me diz sempre que sozinho,
que sozinhos sempre estamos.
(Cavalo Marinho)
CAIS

à beira do porto
meu corpo sonha
e vence o medo

traz-me o mar
à pedra dura
e seu calendário

à pedra dura
e seus hieróglifos
de máscaras e raízes

em que não basta
para salvar-me
o sal sua teimosia

mas a pedra (por dentro)
a pedra dura
vivê-la
(Itinerário do Caos)
PAISAGEM ÍNTIMA

se você olhasse
nos olhos de minha alma
veria a paisagem mais bonita do mundo:
você

domingo, 26 de julho de 2009

pueminha Mitidu a besta

sei lá (à porra a nova ortografia)
mi discul(i)pi
ocê qui inda assunta, iscuita,
óia só: isqueci u puema
(ou seria: mi si isquici du puema? (há outrus qui fazem assi > pu! ema)
(pink floyd é de lascar!..


terça-feira, 21 de julho de 2009

VAGALUME


O menino em êxtase diante da luz azul azulzinha piscapiscando no escuro do quintal, na Rua do Porto Grande, piscapiscando em descompasso elevado de estranha e mágica harmonia, a luzinha azul dizendo, calando-se, linguagem (o menino ainda não sabia) que durante a existência inteira estaria dentro dele a dissolver-se refazer-se apagar-se alumiar as travessias que o pensamento jamais alcança.
Fascinado, o menino olhava a luzinha azul que piscava e piscava na piscina imóvel dos seus olhos. Sumiu.
E apareceu outra outras tantas vezes tantas deixando-o tonto e levando-o às estrelas ao escuro imenso sob o azul e o azulzinho outra vez crescia e crescia e trazia a realidade escondida sob o chão entre as pedras impalpáveis da imaginação do menino boquiaberto ante a luz azul azulzinha piscapiscando em seus olhos só poesia.
Sumiu.
Restaram as estrelas e o escuro.
O imenso escuro.

terça-feira, 23 de junho de 2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009


LEITURA

nenhuma palavra é em vão
e no vão entre elas
- janelas -
vão abrindo pra dentro

(Itinerário do Caos)
CONCEPÇÃO

sílaba
relâmpago
fa/ísca no oceano da palavra
- a palavra em nua gestação
a palavra jamais pronunciada

silenciosamente
à espera de um nome



(Cavalo-Marinho)

AUTORIA

eu
faço
a
poesia
me
faz
a
poesia

(Cavalo-Marinho)


terça-feira, 16 de junho de 2009

CAOS I

Teu instante
— claro suor —
na ferida aberta
desse chão nenhum.
Espanto e vertigem
nos interstícios
da realidade

(Itinerário do Caos)